Ponte de Pedra/Rembrandt (Estudo)
Óleo sobre cartão
2011
Marcelo Amaral (M. Coelho)
Em “Paisagem desconstruída_ Mostra revela que não há forma natural de ver, mas maneiras distintas de perceber” (O Globo/Segundo Caderno, p. 04, 16/01/2012), Marisa Flórido tece uma crítica à exposição “Lugar Comum”, em que o artista Carlito Carvalhosa mostra suas obras na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema (RJ). Obras compostas de instalações onde o artista explora o espaço, a luz, a transparência e outros conceitos.
Marisa Flórido introduz o texto lembrando a especulação imobiliária que alça elevados preços para as construções da região. Escreve ela: “A paisagem, mais do que símbolo do Rio, interfere no jogo especulativo do mercado imobiliário e turístico”. Dentro do contexto artístico, lança um olhar sobre o 'nascimento' da paisagem. Revela: “(...) essa pequena palavra, 'paisagem', foi usada pela primeira vez no vocabulário das artes, segundo Louis Marin, em 1521, por Mar-Antonie Michiel, referindo-se à 'A tempestade' (1508), de Giorgione”. Lembrando o anonimato da paisagem entre os gregos e romanos, diz que a paisagem “(...) surge com a perspectiva pictórica, constituindo-se como gênero artístico apenas no Renascimento”.Quando Leonardo e seus contemporâneos passam a ver o mundo com outros olhos, a paisagem passa a ser representada com mais profundidade.
Essa nova forma de ver permite que se faça um recorte do mundo. Um recorte que só seria possível a partir de um outro plano. “Para sua representação, seria necessária a janela, (…) artifícios de mediação deveriam ser invisíveis e transparentes, para que a paisagem se mostrasse como um equivalente visual da natureza. O que estava implicado era a própria naturalização do olhar”. Essa janela não poderia deixar de ser outra senão os olhos do homem.
Flórido coloca o homem como agente ativo nesse processo. Para ela, se trata de uma relação de interdependência. “Afinal, a noção de paisagem é indissociável desse animal orgulhoso que se pôs na vertical, que submeteu os horizontes do mundo a seu olhar e a sua medida, a um ponto de fuga na altura exata de sua contemplação. A paisagem ancorava-se no olhar desse sujeito humanista, para ordenar os espaços e reunir no horizonte a dispersão”. Não à toa, depois de criar o Homem, Deus delegou-os tal responsabilidade. Disse Deus: “E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gênesis 1.28).
A paisagem é vista como um correspondente do olhar. Está nas entrelinhas a relação homem-olhar-paisagem. Ao transpor para a tela, por meio de traços e cores, um recorte de paisagem, o artista está compartilhando sua visão de mundo. Termina Flórido: “'Lugar Comum' nos revela que sistemas perceptivos, culturais, ideológicos subjacentes emolduram a vida e o pensamento do mesmo modo que o retângulo da pintura pode circunscrever o olhar”.