MANOEL DA COSTA ATHAIDE (1762-1830): Abraão oferece hospitalidade aos três anjos, c. 1799. Pintura sobre madeira à maneira de azulejo. Ouro Preto, Igreja de São Francisco de Assis, capela-mor
Há quem considere a existência de uma arte brasileira pré-cabralina. A história aponta as cartas de Caminha como o texto inaugural da literatura brasileira. Mas é consenso que uma arte tipicamente brasileira só apareceria após o Barroco. Isso por volta do século XVIII. É quando a Igreja, nas ondas do expansionismo marítimo e no fervor da Contrarreforma chega com força às Américas. Riquezas como o açúcar e depois o ouro financiaram o movimento missionário cristão. As catedrais e matrizes passam a exigir uma decoração especial. As reduções indígenas cederam lugar às vilas. Nasciam os primeiros núcleos urbanos. Os selvagens pagãos se converteram em colonos piedosos. Os cristãos do novo mundo precisavam ser educados na fé. Para isso as imagens serviriam bem.
As imagens de gravura possuíam uma espécie de auréola sagrada. Detinham um poder de verdade. As gravuras eram tidas como uma transfiguração do ser santificado. Inúmeras vezes elas serviram para “(...) levar incautos às garras do Santo Ofício (...)”. Consta nos autos da primeira visita da alta cúpula do Santo Ofício à América a história de Álvaro Sanches. Diz lá que o colono foi punido por, vinte anos antes, ter “picado” com alfinete a gravura de uma Nossa Senhora. Os primeiros habitantes tinham dessas imagens em casa a fim de manifestar a fé católica. No entanto, as gravuras atendiam mais ao interesse católica de evitar desvios na fé, “(...) uma preocupação constante na doutrina da Igreja, principalmente a partir do Concílio de Trento (1545-1563)”. Daí a preocupação com pinturas que recorressem às gravuras a fim de “(...) apresentar com clareza a mensagem a ser transmitida”.
Naquele contexto cristão os impressos litúrgicos e teológicos eram de grande serventia não somente espiritual, mas também artístico, “(...) serviam como caminho para transportar imagens renascentistas para as paredes (… e) auxiliar pintores na América portuguesa a não infringir dogmas católicos”. Assim, os primeiros artistas genuinamente brasileiros não tiveram outra alternativa senão recorrer às gravuras circulantes à época como referência para suas obras. Desde então, as paredes foram cobertas de tintas e telas que retratavam temas ligados à fé católica. O talento dos pintores coloniais muito contribuiu aos interesses da Igreja Oficial.
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